Cúpula dos Povos começa com críticas e ceticismo em relação à Rio+20

17/06/2012

Evento realizado por organizações não governamentais e movimentos sociais do Brasil e do mundo denuncia o que considera a invasão dos interesses de grandes empresas transnacionais nas negociações da conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável.

Assembleias e plenárias pretendem definir plataforma de lutas comuns em defesa dos direitos sociais e humanos A Cúpula dos Povos foi aberta ontem, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, com críticas às propostas em discussão na Rio+20, que começou na quarta e vai até o dia 22.

O clima é de ceticismo em relação à possibilidade de que a conferência da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre desenvolvimento sustentável leve em consideração as posições das organizações da sociedade civil e mesmo que tenha resultados concretos.

“Não confiamos no que está sendo negociado [na Rio+20] e em seus possíveis resultados”, diz Cindy Weisner, da Aliança Popular pela Justiça Global, dos EUA, que faz parte da coordenação da cúpula. “Precisamos de soluções reais e aqui na Cúpula dos Povos é onde estão os verdadeiros defensores dos direitos e do futuro dos povos.” 

"Ao contrário de 1992, quando surgiram vários documentos-chave que até hoje influenciam as políticas ambientais, como a Agenda 21, a Carta da Terra, as convenções da Biodiversidade e do Clima, neste momento não temos a mesma perspectiva", lamenta Ivy Weins, do ISA.

A cúpula pretende fazer um contraponto à Rio+20 e vai discutir, até o dia 23, propostas para garantir justiça social e ambiental. Ela reúne cerca de 30 mil representantes de entidades não governamentais, redes e movimentos sociais do Brasil e de dezenas de países.

Várias das organizações que estão no evento participaram ou continuam participando das consultas e debates da Rio+20 abertos à sociedade civil. Em abril, no entanto, a coordenação da cúpula resolveu abandoná-los por considerar que o governo brasileiro vinha conduzindo-os de forma autoritária.

No final da semana, porém, haverá um encontro entre representantes da cúpula e o secretário da conferência da ONU, Sha Zukang. Enquanto isso, no Riocentro, as negociações oficiais sobre o rascunho do documento final da Rio+20 continuam emperradas. Depois de meses de tentativas de avanço, até a madrugada deste sábado havia consenso sobre 55% dos itens do acordo.

Enquanto isso, no Riocentro, as negociações oficiais sobre o rascunho do documento final da Rio+20 continuam emperradas. Depois de meses de tentativas de avanço, até a madrugada deste sábado havia consenso sobre 55% dos itens do acordo.

As conversas sobre o texto deveriam ter sido finalizadas ontem, mas sem um acordo final elas seguirão até segunda-feira, quando chefes de Estado de todo o mundo chegam ao Rio para finalizar as tratativas. O governo brasileiro assumiu a partir de hoje as negociações.

Exploração
 
Para os organizadores da cúpula, a negociação dos dois temas da Rio+20 – economia verde e a nova governança internacional para o desenvolvimento sustentável – esconde, na verdade, a discussão de novos instrumentos para ampliar a exploração econômica, beneficiar grandes empresas transnacionais e o mercado financeiro.
 
“A própria temática escolhida pela ONU é contestada pelos movimentos sociais. Entendemos que ela continua tratando a questão do desenvolvimento e do meio ambiente sob a ótica da exploração das pessoas e dos recursos naturais, sem priorizar o desenvolvimento local e os direitos das populações”, alerta Ivy Wiens.
 
“O processo [oficial de negociação da ONU] está muito problemático e praticamente falido porque há uma captura pelas grandes corporações da ONU”, critica Luiz Zarref, da Via Campesina.
 
Ele argumenta que só a articulação entre movimentos e redes sociais internacionais poderá reverter a correlação de forças nas negociações internacionais sobre meio ambiente para que elas possam ser feitas em bases democráticas, o que não vem ocorrendo. “O que a Cúpula dos Povos tem feito é aumentar a convergência entre os movimentos e organizações”, afirma.
 
“A cúpula não entende a conferência como o único espaço para dialogar sobre a questão da sustentabilidade. A cúpula quer dialogar, em primeiro lugar, com a própria sociedade”, diz Pedro Ivo Batista, da Associação Alternativa Terra Azul. “A Rio+20 virou as costas para a sociedade. Não é a sociedade que virou as costas para ela”, aponta.

Fonte: Instituto Socioambiental (ISA)

Local: Parque do Flamengo

 

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