Caminhos para o financiamento da agropecuária de baixo carbono

18/06/2012

 

Encontro de especialistas na Rio+20, com mediação do GVces, aborda aspectos institucionais, técnicos e culturais para o financiamento da atividade agropecuária no contexto das mudanças climáticas globais, 
 
GVces, 17/06/2012
Ricardo Barretto
 
 
A agropecuária é um setor fundamental para a viabilização da economia de baixo carbono no Brasil, seja por sua relevância no cenário brasileiro, seja por sua relação com o desmatamento – a principal fonte de emissões de gases do efeito estufa no país – ou ainda por sua representatividade social. Para dialogar sobre os desafios e perspectivas para o avanço no financiamento de iniciativas de baixo carbono na agropecuária, especialistas do setor estiveram presentes neste domingo, 17/6, no Pavilhão do Reino Unido, na Rio+20. 
 

Mario Monzoni

A conversa teve mediação de Roberta Simonetti, coordenadora do programa Finanças Sustentáveis, do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da Escola de Administração e Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), que vem realizando nos últimos anos estudos sobre financiamento da economia de baixo carbono no Brasil, tendo a Embaixada Britânica como um importante apoiador (saiba mais). “Esse evento faz parte da construção de uma agenda de baixo carbono no país, especialmente no setor agropecuário”, explicou Mario Monzoni, coordenador do GVces.
 
Participaram do diálogo Rosimeire Cristina dos Santos, superintendente técnica da Confederação Nacional da Agricultura (CNA); Guilherme Guimarães, gerente de Meio Ambiente do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES); Álvaro Santamaria, gerente da Diretoria de Agronegócios do Banco do Brasil; e Helinton Rocha, assessor do Departamento de Sistemas de Produção e Sustentabilidade, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. 
 
 
Plano ABC
 
Dentre as linhas de financiamento disponíveis para a agricultura de baixo carbono, ganhou especial atenção no encontro o Plano ABC. Estabelecido em 2010, o Plano ABC teve os primeiros contratos de financiamento fechados apenas em 2011, resultando no financiamento de mais de 55 milhões de reais pelo Banco do Brasil na safra de 2012. Este montante equivale a 70% do total contratado em financiamentos do Plano ABC, segundo informou Álvaro Santamaria. “O Banco do Brasil não trabalha apenas com recursos disponibilizados pelo BNDES. Usa também a poupança rural, que responde pela maior parte do recurso aplicado pelo banco”, revelou Santamaria.
 
Segundo ele, a baixa contratação de financiamentos nos primeiros meses de vigência do Plano ABC se deve ao desconhecimento da existência da linha, que tem 5,5% de taxa de juros e até seis anos de prazo para pagamento – condições consideradas muito boas para o mercado. No caso do Banco do Brasil, cerca de 50% do que se financia é referente à recuperação de pastagem – sendo metade desse montante para a ação direta de reforma de pastos e o restante dividido entre assistência técnica, cercamento, manejo do gado etc.
 

Rosimeire Cristina e Guilherme Guimarães

“O Plano ABC ataca a questão da produtividade, beneficiando a redução das emissões de carbono”, definiu Guilherme Guimarães, gerente de Meio Ambiente do BNDES. Para ampliar o acesso à linha de financiamento do Plano ABC, Guimarães apontou o estabelecimento de parcerias com entidades de extensão rural, para sanar gargalos na ponta da cadeia; parcerias com bancos que fazem o repasse do recurso, para garantir que tenham a informação necessária e estejam engajados no produto; e o aprimoramento operacional, para tornar esse tipo de financiamento mais ágil. 
 
 
Tecnologia e ganhos no baixo carbono
 
A CNA também tem investigado modos de se estimular a contratação do financiamento para a agricultura de baixo carbono, que oferece taxas e prazos mais vantajosos ao produtor. Para Rosimeire Cristina dos Santos, superintendente técnica da CNA, o próprio desconhecimento sobre o que é agricultura de baixo carbono é um obstáculo. Em resposta, a confederação deu início a um programa de capacitação de técnicos de bancos e técnicos de projetos agrícolas, que já beneficiou mais de 600 profissionais. 
 
Um próximo passo da CNA para ampliar o potencial do financiamento da gricultura de baixo carbono é desenvolver um estudo com foco no Plano Rural associado às atividades de pecuária e agricultura da soja, algodão e milho, entre outros gêneros. “A intenção é comparar a tecnologia convencional com a de baixo carbono e mostrar ao produtor o quanto ele vai ganhar com isso”, explicou Rosimeire. “A intenção da CNA é melhorar a rentabilidade do produtor, fazer uma política inclusiva e melhorar a imagem do setor.”
 
Álvaro Santamaria, do Banco do Brasil, reforçou a importância do treinamento de técnicos nas iniciativas que visam dar ganho de escala aos financiamentos da agricultura de baixo carbono. “O técnico que vai mostrar a viabilidade e a vantagem da tecnologia da integração lavoura-pecuária, por exemplo, precisa entender muito bem do que se trata para deixar claro o benefício ao produtor e os trâmites associados.”
 
 
Cenário brasileiro
 
O caráter suis generis da agricultura brasileira também foi considerado fator de influência na viabilização da agricultura de baixo carbono no Brasil. Segundo Helinton Rocha, assessor do Departamento de Sistemas de Produção e Sustentabilidade, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), uma dessas características é o fato do país ter menos de 6% de subsídio direto ao setor. “Temos hoje pouco mais de 3 bilhões de reais disponíveis em financiamento para a agricultura de baixo carbono, num setor que demanda cerca de 300 bilhões por ano”, destacou Rocha. “Também não existe um país com uma dependência tão grande da agropecuária para a estabilidade da balança comercial”, salientou Helinton Rocha. Isto significa que quanto maior a demanda externa por produtos de baixo carbono, maior o estímulo a essa vertente da atividade agropecuária.
 

Álvaro Santamaria, Roberta Simonetti, Helinton Rocha, Rosimeire Cristina e Guilherme Guimarâes

Outra questão a ser observada é de caráter cultural. “A agricultura também tem a ver com a tradição dos produtores, das famílias que lidam com a atividade”, lembrou Rocha. Implantar inovações tecnológicas e de modelos de produção significa lidar com essas especificidades, segundo o representante do MAPA. “Não podemos esquecer a relevância da agricultura familiar para a melhora dos índices sociais no Brasil”, completou Rocha.
 
Ele destacou também a ligação da agropecuária brasileira com o desmatamento e a emissão de gases do efeito estufa. “Vamos ‘travar’ a Amazônia e incentivar a agricultura nos mais de 40% de solos degradados existentes hoje no país”, disse Helinton Rocha. “O avanço da produção sobre solos degradados tem de ser pensado do ponto de vista estratégico e o grande gargalo é tecnológico e da informação que tem o técnico que vai atuar junto ao pequeno e médio agricultor”, explicou sobre a estratégia do governo federal, que ainda implicará lidar com um passivo no fornecimento de madeira no país.
 
Na visão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a atividade agropecuária almejada para o Brasil é altamente eficiente, com estabilidade – que não armazena passivos ambientais, trabalhistas e agronômicos – e equidade. “Por exemplo, que o peão também tenha um benefício quando participa da produção do bife orgânico”, esclareceu o representante do MAPA sobre a necessidade dos benefícios estarem ao longo de toda a cadeia. “Isso deve entrar numa fase futura do Plano ABC, que agregará questões como certificação”, completou. Helinton Rocha lembrou ainda que o Plano ABC tem uma estratégia de gestão por estados, que atende a diferenças de realidades regionais, mas também revela níveis de proatividade diferentes e, portanto, níveis de avanço diferentes. “Queremos afinar o Plano para que seja ferramenta de viabilização das tecnologias para o baixo carbono.” 
 
Ao final do evento, quando explicou que o parâmetro para medir a eficácia das iniciativas em baixo carbono na agricultura será a redução de emissões, Helinton Rocha indicou que deverá haver uma política federal para essa quantificação.

Fonte: GVces

Local: Parque dos Atletas

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