Encontro anuncia o caminho para se viabilizar a Declaração do Capital Natural

20/06/2012

 

GVces, 19/06/2012
Ricardo Barretto
 
Lançada oficialmente no sábado, 16/6, a Declaração do Capital Natural (NCD, na sigla em inglês), é assinada por CEOs de instituições financeiras que assumem o compromisso de considerar o capital natural no planejamento e nas decisões sobre seus produtos e serviços financeiros. A NCD foi tema de um encontro realizado na Rio+20, em 18/6, sobre o mapa do caminho (Road Map) para sua viabilização na prática. A iniciativa é coordenada pelo UNEP-FI – o braço financeiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente -, pelo Programa Global Cannopy e pela Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da Escola de Economia e Administração de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP). 
 

Da esquerda para direita: Andrew Mitchell (diretor executivo do Global Canopy Programme), Roberta Simonetti (coordenadora do programa Finanças Sustentáveis do GVces), Mario Monzoni (coordenador geral do GVces), Richard Barrett (copresidente do UNEP-FI), Kookie Habtegaber (coordenadora da Declaração do Capital Natural) e Richard Spenser (chefe de sustentabilidade do ICAEW)

“As instituições financeiras investem a partir do balanço entre risco e retorno e continuarão a fazer isso. Se trouxermos a externalidade do capital natural na conta, as empresas continuarão a operar dessa maneira, acrescentando esse elemento que antes ficava fora da equação”, disse Mario Monzoni em sua fala introdutória. O coordenador do GVces citou a importância de regulamentações que deem uma base comum para que se avance do cenário das ações voluntárias, que é positivo, porém menos efetivo. 
 
“Através da NCD, convidamos hoje as instituições financeiras a entrar em uma nova era e aquelas que tomarem a liderança estarão melhor preparadas para o futuro, antes que novas regulações apareçam”, disse Mario Monzoni sobre a tendência crescente de que o capital natural deixe de ser pensado como externalidade da economia.
 
 
O caminho
 

A origem da NCD remonta à Conferência de Nagoya, realizada em 2010 no âmbito da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica. Um grupo de especialistas de diferentes instituições internacionais procurava explicar porque era importante para as empresas considerar o capital natural em suas decisões. Quem explica é Richard Barrett, co-presidente do UNEP-FI que esteve no evento da NCD e fez parte do grupo que atuou em Nagoya. Na época, fora anunciado o relatório do ONU conhecido pela sigla em inglês TEEB - A Economia de Ecossistemas e da Biodiversidade - que calculava entre 2 e 4,5 trilhões de dólares o custo dos impactos ambienatais das 3 mil maiores empresas do mundo. “Se as externalidades tivessem sido colocadas no balanço daquelas empresas, muitas estariam em situação deficitária”, analisou Barrett. Dessa percepção surge o processo de quase dois anos que resultou na formulação da Declaração do Capital Natural.
 
“Atualmente, as instituições financeiras não têm as ferramentas para integrar esses critérios em suas atividades”, afirma Kookie Habtegaber, coordenadora da NCD, sobre o desafio que se põe adiante. O tom crítico também fez parte da fala de Andrew Mitchell, diretor executivo do Global Canopy Programme: “Devo dizer às instituições financeiras que vocês estão um pouco atrás na curva de construção de um novo pensamento”, disse Mitchel ressaltando que governos e empresas têm respondido com mais agilidade a essa nova realidade. 
 
Vem daí a importância da construção do Road Map. “Estamos falando de uma transformação em nossa economia para pôr um fim na invisibilidade da natureza que imperou nos últimos séculos”, resumiu Andrew Mitchell. O Road Map foi preparado pelos chamados “convocadores” da NCD – UNEP-FI, GCP e GVces - e entrará em uma fase de consulta pública ainda em 2012. 
 
O que diz o Mapa
 
Quatro passos estão propostos para viabilizar a prestação de contas à natureza: entender a dependência e os impactos que o capital natural exerce sobre as atividades econômicas; considerar como integrar considerações de capital natural nos produtos e serviços financeiros;  incluir o capital natural em relatórios, trazendo a perspectiva da relação-chave entre o desempenho de uma organização e sua relação com recursos e serviços ecossistêmicos; levar em conta o capital natural no planejamento e nas decisões do setor financeiro.
 
As próximas etapas do processo de discussão e implementação do Road Map envolvem um evento de alto nível que será realizado no dia 20 de junho, na sala T4 do Riocentro, às 13h00 para discutir propostas do Road Map da NCD. Depois, um esforço para levantamento de fundos que irão custear, entre outras iniciativas, uma série de encontros regionais.
 
Questões que devem aparecer nos diálogos a partir do Road Map foram apontadas ao longo dos dois painéis que compuseram o evento do dia 18, na Rio+20. Entre elas, o fato de investidores não saberem como integrar o capital natural a suas estratégias e decisões e o papel da monetização do capital natural - aliado à necessidade de se olhar para outras modalidades para se considerar o capital natural nos produtos e serviços financeiros -, além da importância de se ter uma linguagem comum para se contabilizar o capital natural.
 

Alguns dos especialistas presentes ao evento: Alan McGill (parceiro de sustentabilidade e mudança do clima da PwC), Martin Turner (vice-presidente da ACCA),  Paul Druckman (CEO  da IIRC), e Paul Simpson, (CEO da CDP)

Questões de fundo também devem ser debatidas para a fundamentação dos caminhos para a integração do capital natural ao pensamento do setor financeiro. Entre elas, o fato de que os recursos que estão na mão do investidor pertencem muitas vezes a cidadãos que estão preocupados com a crise ambiental do planeta e, é claro, o próprio fato dos limites ambientais do planeta estarem impondo a construção de uma nova economia, que pede menos degradação dos ecossistemas, novos indicadores de desenvolvimento e o fim de subsídios perversos.

Fonte: GVces

Local: Parque dos Atletas

 

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