Temas da Economia Verde

Apresentação

Há basicamente três grandes blocos temáticos essenciais para entender a transição à Economia Verde. O primeiro grupo compreende assuntos relacionados à sociedade urbano-industrial, cujo modelo econômico foi herdado da Revolução Industrial e exacerbado no pós-guerra. É um modelo que não sabe o que fazer com o lixo que gera, depende de substâncias químicas perigosas para a saúde humana e o meio ambiente, baseia-se em uma matriz energética com grande impacto ambiental e articula-se a sistemas de transporte que priorizam os carros e poluem a atmosfera.

O segundo grupo inclui questões relacionadas à utilizaçao dos ativos naturais pelos agentes econômicos. São ativos estruturais para o bom funcionamento da economia a longo prazo, tais como florestas, biodiversidade, ecossistemas aquáticos e solo, que vêm sendo destruídos em detrimento do lucro fácil e imediato. O terceiro grupo refere-se a ações relacionadas à redução da pobreza e de desigualdades.

Destacamos nove temas centrais que se encaixam nos três blocos temáticos. Cada um dos nove temas apresenta o item "Para saber mais", com  indicações de sites e bibliografias específicas.

Energia e mudanças climáticas

Construção Civil

Resíduos

Químicos

Transporte

Florestas e uso da biodiversidade

Agricultura e pesca

Economia solidária

Finanças sustentáveis

 

Energia e mudanças climáticas

A tarefa de tornar o setor energético mais sustentável implica a execução de políticas públicas e investimentos voltados à eficiência energética e aos investimentos em fontes renováveis e com baixo impacto ambiental. Trata-se de reorientação radical do atual modelo  com benefícios diretos na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), da poluição e de impactos socioambientais negativos sobre florestas, biodiversidade e populações que vivem nas áreas de grandes projetos. Na última década, os investimentos globais em energia renovável têm crescido a taxas bastante elevadas. Estima-se que os aportes globais alcançaram o recorde de US$243 bilhões em 2010, acima dos US$187 bilhões de 2009 e dos US$180 bilhões de 2008.

A expansão é cada vez mais puxada por países em desenvolvimento, especialmente as grandes economias emergentes, sendo Brasil, China e Índia. A despeito do incremento substancial nos investimentos em renováveis, a matriz energética global ainda é dominada com folga pelos combustíveis fósseis (81% do consumo final). Completam os 19% restantes as fontes nuclear (2,8%) e um conjunto de diversas tecnologias renováveis (16%): hídrica (3,4%), eólica, solar, biomassa e geotérmica (2,2%), biocombustíveis (0,6%) e biomassa tradicional (10%), usada em países em desenvolvimento no aquecimento e cozimento de alimentos.

Três segmentos destacam-se no uso de energia – transporte, aquecimento e eletricidade. O de transportes consome mais da metade dos combustíveis líquidos produzidos no mundo e responde por 23% das emissões globais de CO2. Biocombustíveis, carros elétricos e híbridos, carros flex (álcool e gasolina) e células de combustível a hidrogênio são as principais tecnologias em desenvolvimento para diminuir o peso do setor nas emissões globais de carbono. No seguimento de aquecimento, mais forte nas regiões temperadas e no sul do Brasil, a energia solar é a tecnologia que tem ganhado terreno na substituição de gás natural.

No segmento elétrico, predominam derivados de petróleo, gás natural e carvão, representando 67,6% da matriz elétrica mundial, enquanto a nuclear detém 13%, as hidrelétricas,16,1%, e as outras fontes renováveis 3,3%, englobando biomassa, eólica, solar fotovoltaica, geotérmica, marés e ondas do mar. A energia dos ventos é a que tem apresentado taxas mais elevadas de expansão nos últimos dez anos, tendo alcançado 215 mil megawatts (MW) em capacidade instalada no final de junho de 2011 (quase nove vezes superior à de 2000 e equivalente a quase o dobro de toda a potência elétrica existente no Brasil).

Por possuir a matriz energética mais limpa do mundo, com 46,8% de energia proveniente do etanol, da biomassa (bagaço de cana, resíduos vegetais e lenha) e das fontes hídrica e eólica , o Brasil não segue o figurino geral.  Na matriz elétrica brasileira é também notável a participação das renováveis, que correspondem a 74% da capacidade total instalada de 124 mil MW (dados de setembro de 2011), bem menos que os 83% do fim de 2001. Parte do decréscimo na porção hídrica foi compensada parcialmente pelo aumento na geração das usinas eólicas, que respondem por 0,93% da matriz elétrica, e cogeração por biomassa, sobretudo bagaço de cana, cuja proporção era de 6,88% em setembro de 2011.

Apesar de sua liderança nas renováveis, o País enfrenta sérios entraves em seu modelo elétrico. Um deles é o princípio da modicidade tarifária, descolado de exigências de sustentabilidade socioambiental, que privilegia a energia mais barata, geralmente mais suja. Outro dilema elétrico é a construção de grandes e controversas hidrelétricas nos delicados ecossistemas da Amazônia – nem mesmo as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) estão imunes a problemas, particularmente quando instaladas em um único rio, porque acabam alterando seu fluxo. Uma terceira questão é a centralização da produção e distribuição de energia nas mãos de poucos atores – uma matriz energética com maior percentual de energia solar, por exemplo, na qual todos que têm placas fotovoltaicas pudessem devolver energia à rede no caso da geração ser maior que o consumo (sendo remunerados para isso), seria uma alternativa.

Chama atenção a expansão veloz do parque eólico no País. A capacidade instalada de geração que era de apenas 29 MW em 2005, pulou para 1.145 megawatts, em setembro de 2011,  e deverá cruzar a marca dos 5.000 MW em 2014 . Contribuíram para o salto o Programa Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), a recessão nos países desenvolvidos, que redirecionou investimentos para países em desenvolvimento, e o aprimoramento tecnológico das usinas, sobretudo a duplicação na altura das torres, que melhorou a taxa de aproveitamento dos ventos, diminuindo pela metade os custos de geração entre 2009 e 2011.

No setor de transporte, os biocombustíveis já respondem no Brasil por quase 21% do consumo total de combustíveis líquidos – 24,6 bilhões de litros de etanol e biodiesel em 2010. Os biocombustíveis apresentam inegáveis vantagens econômicas e ambientais – liberam menos monóxido de carbono e material particulado e suas emissões de CO2 são parcialmente compensadas pela absorção do gás pelas plantas. Mas, enfrentam o desafio da sustentabilidade socioambiental da produção.

Após acusarem os europeus de levantarem uma barreira protecionista contra o etanol brasileiro, o setor sucroalcooleiro do Brasil aceitou buscar a certificação socioambiental das lavouras para não perder um de seus maiores mercados potenciais, a União Europeia (UE) . O bloco tem como meta para 2020 empregar fontes renováveis – que reduzam as emissões de gás carbônico e não impactem negativamente a biodiversidade e o uso da terra – em pelo menos 10% do volume de combustíveis do setor de transporte . Vultosos investimentos também estão sendo realizados em pesquisa de novos usos energéticos para a cana (etanol celulósico e óleos verdes, como o diesel de cana) e em alcoolquímica (plásticos verdes).

Energia nuclear – É fato que a produção de energia atômica libera pequena quantidade de gás carbônico em comparação com as fontes fósseis, a maior parte na extração e processamento de urânio. Foi esse o mote usado pela indústria nuclear ao longo da década passada, que influenciou governos a retomarem projetos de plantas atômicas. Contudo, o acidente ocorrido em março de 2011 na usina nuclear de Fukushima, no Japão, reforçou os temores quanto à segurança dessa fonte energética.

Além da vulnerabilidade a acidentes e ataques terroristas, prossegue sem solução o problema do destino do lixo atômico. Apesar de Fukushima, o governo brasileiro mantém planos de implantar quatro centrais nucleares no Nordeste e no Sudeste com potência prevista de 1.000 MW cada. Hoje o país gera energia nuclear a partir das usinas Angra 1 e 2 (2.000 MW) e está terminando  a construção de Angra 3 (1.350 MW).

Eficiência energética – Um dos objetivos da Economia Verde é ampliar a eficiência no uso de matéria-prima, água e energia, de modo a aumentar a produção, utilizando menos recursos naturais, processo que é sintetizado no conceito de decoupling  ou descolamento, em português.  Em resumo, o conceito nutre-se de alguma forma  da “curva de Kuznets” – que associa o crescimento contínuo da renda per capita ao aumento na desigualdade durante uma fase inicial, mas que depois será compensada, com vantagens, na medida em que a renda per capita continue a crescer.

Ao mesmo tempo, há, também, especialistas questionando os limites dessa ideia, levantando o conceito do efeito bumerangue, que remete à neutralização do decoupling pelo redirecionamento para o consumo da economia efetuada com eficiência energética.

De qualquer modo, a eficiência energética é um dos princípios estruturais da Economia Verde e tem levado muitas companhias a implantar programas desenvolvidos pelas empresas de serviços de conservação de energia .Além de cortar custos com energia elétrica, insumo cada vez mais caro, a eficiência energética pode contribuir com a proporção de 16% da redução nas emissões globais de CO2  no cenário Blue Map da Agência Internacional de Energia (AIE), que projeta corte de 50% nas emissões de CO2 relacionadas à energia até 2050 em comparação com os níveis de 2008.

Embora ainda pequeno se comparado ao dos Estados Unidos e da Alemanha, o mercado de eficiência energética no Brasil registra crescimento anual de 15% a 30% desde 2005 e já passa de R$1 bilhão . O principal estímulo para os investimentos é a Lei 9.991, de julho de 2000, que obriga distribuidoras de energia a aplicar, no mínimo, 0,5% da receita operacional líquida no combate ao desperdício de energia .

Mercado de carbono – Investimentos em energia renovável e eficiência energética têm sido estimulados pelas metas de redução nas emissões de carbono previstas no Protocolo de Kyoto , que entrou em vigor em fevereiro de 2005. O mercado global de carbono totalizou US$142 bilhões em 2010 , com operações concentradas nos três instrumentos de mercado previstos por Kyoto para facilitar o alcance das metas do tratado pelos países do Anexo 1 (*) da Convenção do Clima – Comércio de Carbono, Implementação Conjunta (IC) e Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) . Entretanto, a transformação de bens comuns em mercadorias, como é o caso da compra e venda de espaço na atmosfera por meio do mercado de emissões de carbono, é vista não como a forma de gestão de um patrimônio natural, mas como meio de criação de novos mercados e mercadorias, passíveis de especulação e de apropriação privada, e assim capazes de servir à continua acumulação capitalista.

(*) Países desenvolvidos, à exceção dos Estados Unidos, que não ratificou o tratado, e economias em transição do leste europeu com obrigação de diminuir em 5% em média suas emissões de gases de efeito estufa entre 2008 e 2012 em comparação com os níveis de 1990.

Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) – A Lei 12.187, que instituiu a PNMC, foi promulgada em dezembro de 2009 e regulamentada pelo Decreto 7.390, de dezembro de 2010, estabelecendo como meta o corte de emissões no intervalo entre 36,1% e 38,9% sobre o cenário projetado hoje para 2020 (que considera que nada seria feito para controlar as emissões, além das ações já em curso). Metade da redução viria da diminuição no desmatamento (80% na Floresta Amazônica e 40% no Cerrado) (Veja informações sobre o mecanismo de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação – Redd em Exemplos de meios para viabilizar a Economia Verde). A outra metade, da expansão da porção renovável da matriz energética, de ganhos de eficiência nos processos industriais, da queima de metano para produção de eletricidade nos aterros sanitários e de uma série de tecnologias para tornar a agricultura mais limpa.

Para saber mais

 

 

Outras informações sobre o tema

  • Agenda elétrica sustentável 2020: estudo de cenários para um setor elétrico brasileiro eficiente, seguro e competitivo, estudo do WWF-Brasil, 2ª ed., março 2007. Pode ser baixado em http://assets.wwfbr.panda.org/downloads/wwf_energia_2ed_ebook.pdf


Construção civil

O setor da construção exerce impactos ambientais severos. Responde por 30% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), 40% do consumo anual mundial de energia, 12% do consumo de água doce e 40% da geração de resíduos sólidos . Os problemas ocorrem por toda a cadeia de negócio do setor – do fornecimento de matéria-prima, como madeira, durante a construção de edifícios e casas, até após a ocupação. Preocupam, também, as condições sociais degradantes dos trabalhadores do setor, que emprega 10% da força de trabalho no mundo.

Investimentos anuais globais na faixa de US$300 milhões a US$1 trilhão, poupariam aproximadamente um terço do consumo de energia nos edifícios e colaborariam significativamente para impedir que a concentração atmosférica de GEE ultrapasse o teto de 450 partes por milhão (ppm) proposto no cenário Blue Map da Agência Internacional de Energia (AIE), ou seja, propondo um corte de 50% nas emissões de CO2 relacionadas à energia até 2050, em comparação com os níveis de 2008. Nesse cenário, as emissões declinariam 3,5 bilhões de toneladas por meio de medidas de eficiência energética.

Edifícios verdes também contribuem para a melhoria dos padrões de saúde, habitabilidade e produtividade. Há, ainda, vasto potencial de geração de milhões de empregos em novos edifícios e projetos de adaptação (“retrofitting”), produção de materiais eficientes, expansão das fontes renováveis de energia e serviços de reciclagem e gestão de resíduos.

Para saber mais

  • Normas do Inmetro para eficiência energética em edifícios comerciais
    www.inmetro.gov.br
  • Certificação francesa HQE para construções sustentáveis
    assohqe.org/hqe
  • Iclei – Governos Locais pela Sustentabilidade
    iclei.org
  • Leadership in Energy and Environmental Design (LEED), principal certificação de edificações verdes
    usgbc.org
  • The Business Benefits of Green Buildings: Building and Occupant Performance Driving Green Investment in Existing Commercial Buildings SmartMarket Report. Relatório da McGraw-Hill Construction, de Nova York, Estados Unidos, novembro 2010. http://analyticsstore.construction.com

 

Resíduos

A gestão sustentável do lixo é um aspecto fundamental do Desenvolvimento Sustentável e ainda oferece muitas oportunidades de negócios relacionadas à Economia Verde – especialmente em países como o Brasil, que dá destino inadequado a um terço do volume diário de resíduos sólidos gerados (seguem para lixões e aterros controlados) . Na área de resíduos sólidos, há boas perspectivas de investimentos em aterros sanitários e projetos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) da ONU com captação e queima de metano para geração elétrica. A indústria também tem economizado energia, transporte, matéria-prima e água com o reaproveitamento de resíduos,

Com a promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em agosto de 2010 (Lei. 12.305), o país adotou oficialmente a logística reversa (conjunto de ações destinadas a viabilizar a coleta e devolução à empresa de produto, embalagem ou equipamento descartado para reaproveitamento ou destinação ambientalmente adequada) como elemento obrigatório na gestão do lixo. Empresas, sociedade civil e governo negociam planos setoriais para implementar o sistema em cinco grupos de produtos: eletroeletrônicos; lâmpadas de vapor de mercúrio, sódio e mista; embalagens em geral; embalagens e resíduos de óleos lubrificantes; e medicamentos. Se a PNRS for bem-sucedida, ela motivará a criação de uma nova economia, composta por recicladoras, empresas de logística e de uma cadeia de negócios de resíduos. Em termos globais, a decomposição de matéria orgânica nos lixões e aterros sanitários responde por 5% das emissões de gases estufa – o principal é o metano, possui poder de aquecimento atmosférico 21 vezes superior ao do CO2.

Para saber mais

Consulte também

  • Instituto Nacional de Processamente de Embalagens Vazias (Inpev), atua no recolhimento de embalagens de agrotóxicos
    inpev.org.br
  • Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR)
    mncr.org.br
  • Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente (MMA)
    mma.gov.br/sitio/index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=157

 

Químicos

O setor químico é componente estrutural das economias industriais, mas enfrenta dificuldades imensas para substituir substâncias perigosas ao meio ambiente e à saúde humana por outras com menor impacto. No entanto, a química verde vem pouco a pouco ganhando terreno na pesquisa acadêmica, em laboratórios e na indústria química por meio do desenvolvimento de substitutos produzidos a partir de materiais renováveis e com baixo teor tóxico em combinação com técnicas ecológicas. É o caso das tintas à base de água, no lugar de solventes, com pouca ou nenhuma emissão de compostos orgânicos voláteis (conhecidos pela sigla em inglês VOCs), muitos deles oriundos do petróleo e potencialmente cancerígenos e danosos ao fígado, aos rins e ao sistema nervoso central.

No Brasil, a legislação de controle de substâncias químicas perigosas é inexistente ou muito mais frouxa do que a europeia ou a da Califórnia, nos Estados Unidos. Para citar só um exemplo, o país não tem normas para limitar a níveis mais seguros a quantidade de VOCs em tintas e formaldeído em resinas aplicadas em produtos à base de madeira. Tanto os VOCs quanto o formaldeído são severamente controlados na União Europeia (UE) e na Califórnia.  Enquanto a legislação brasileira não evolui, resta a pressão da sociedade e as iniciativas voluntárias das empresas em desenvolver produtos mais seguros.
 

As três convenções internacionais sobre químicos

Convenção sobre o Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos, Basileia, Suíça, março de 1989
http://www.basel.int/Portals/4/Basel%20Convention/docs/text/BaselConventionText-s.pdf (versão em espanhol, não há texto em português disponível nos sites do governo brasileiro)

Convenção sobre o Procedimento de Consentimento Prévio Informado (PIC) Aplicado a Certos Agrotóxicos e Substâncias Químicas Perigosas Objeto de Comércio Internacional, Roterdã, Holanda, setembro de 1998
http://www.mma.gov.br/estruturas/smcq_seguranca/_publicacao/143_publicacao09032009043346.pdf

Convenção de Estocolmo sobre os Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs), maio 2001
http://www.mma.gov.br/estruturas/smcq_seguranca/_publicacao/143_publicacao16092009113044.pdf (Convenção Estocolmo)

 

 

Para saber mais

  • Nosso Futuro Roubado, portal dos autores de célebre livro homônimo que trata dos disruptores endócrinos – ourstolenfuture.org
  • Rede Latino-Americana de Prevenção e Gestão de Sítios Contaminados
    relasc.org


Transporte

As experiências mais bem-sucedidas de transporte verde atendem ao paradigma “evite- mude-melhore”, que é a mola propulsora de uma transformação radical no sistema de transporte neste século. Integrada a outras áreas, como planejamento urbano, energia, saúde, indústria, mudanças climáticas e turismo, a estratégia começa com a redução de viagens por meio da realocação de atividades econômicas para propiciar acesso mais próximo aos pontos de consumo e ao trabalho.

O segundo princípio remete à mudança para modelos ambientalmente mais eficientes de transporte – sistemas públicos, como corredores e tarifas integradas para ônibus, trens urbanos e metrô; não motorizados, tais como ciclovias e infraestrutura decente para pedestres; e prioridade a ferrovias e hidrovias no transporte de carga. Londres com seu pedágio urbano; Paris e suas ciclovias; Curitiba com a rede integrada de ônibus ligeirinhos e Bogotá, com seus corredores exclusivos para ônibus estão entre os exemplos de maior sucesso em políticas de transporte mais sustentáveis.

Por fim, o terceiro princípio propõe o aprimoramento tecnológico dos veículos visando economia de combustíveis e uso de fontes limpas para reduzir a poluição atmosférica e as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Investimentos em transporte verde promovem geração de renda e emprego, ao ampliar a cadeia de negócios com tecnologias limpas. Segundo o Relatório de Economia Verde do Pnuma , a alocação de apenas 0,16% do PIB global em investimentos no transporte verde cortaria em 70% as emissões de GEE do setor de transporte até 2050. Tal investimento também reduziria em um terço a quantidade de veículos no modal rodoviário e o consumo de derivados de petróleo, além de expandir em quase 10% o nível de emprego no setor.

Para saber mais

  • Detalhes do programa de transporte em Londres. Disponíveis em:
    tfl.gov.uk/
  • Informações sobre o Velib, sistema de aluguel de bicicletas em Paris
    velib.paris.fr
  • Iniciativa Global de Economia de Combustível (GFEI), parceria entre Pnuma, Agência Internacional de Energia (AIE), Fórum Internacional dos Transportes (ITF) e FIA Foundation
    globalfueleconomy.org/Pages/Homepage.aspx

 

Florestas e uso da biodiversidade

As florestas fornecem vários serviços ecossistêmicos imprescindíveis ao equilíbrio ecológico do planeta e à manutenção da biodiversidade animal e vegetal – sequestro de carbono, regulação climática, alimento e repouso aos animais e proteção às bacias hidrográficas. Tais elementos também funcionam como pilares básicos na geração de insumos utilizados na economia – celulose para a produção de papel, madeira para a construção civil e o setor moveleiro, lenha e resíduos vegetais para combustíveis, óleos, sementes, folhas, frutas e fibras usados na alimentação humana, nas indústrias farmacêuticas e de cosméticos, nas montadoras de automóveis e no artesanato e beleza cênica no caso do turismo.

Entretanto, as funções vitais das florestas tropicais encontram-se ameaçadas por uma lógica predatória que exaure áreas ricas em biomassa vegetal, como a floresta amazônica, que desempenha papel estrutural no ciclo global do carbono. Conforme estimativa do Carbonclycle, projeto do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), a mata amazônica sequestra anualmente de 400 milhões a 1(um) bilhão de toneladas de carbono, ou duas a cinco vezes mais que as emissões causadas pelo desmatamento no bioma. É um gigantesco sumidouro de carbono, equivalente às emissões da Europa Ocidental, que tem sido golpeado pela busca do lucro de produtores rurais, madeireiras clandestinas, mineradoras e grandes projetos de infraestrutura nas áreas de energia e transporte.

Inventário de gases de efeito estufa da União Européia (UE), publicado em maio de 2011, revela que as emissões dos 15 países da Europa Ocidental pertencentes ao bloco somaram 3,724 bilhões de toneladas de CO2 equivalente (*). Na conversão, o número equivale a 1,016 bilhão de toneladas de carbono.

A boa notícia é que a luta contra o desmatamento e a proteção dos imensos blocos de vegetação exuberante tornaram-se excelentes negócios verdes. No Brasil, para atender à demanda por madeira e outros produtos florestais, o governo federal começou em 2008 a licitar pedaços das florestas nacionais (Flonas) para a iniciativa privada manejá-las de acordo com critérios similares aos estabelecidos pelo exigente Conselho de Manejo Florestal (FSC). A política de concessões é regida pelas legislações de licitações (Lei 8.666, de junho de 1993) e de gestão das florestas públicas (Lei 12.284, de março de 2006).

Também multiplicam projetos inspirados no mecanismo de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação (Redd). Porém, um sério nó a ser resolvido é o do acesso aos recursos genéticos por companhias farmacêuticas, de cosméticos e alimentos e repartição dos benefícios advindos da exploração da biodiversidade, assunto hoje regulado por uma controversa MP 2.116-16, de agosto de 2001. Um anteprojeto de lei regulamentando o acesso e a repartição de benefícios dorme nas gavetas da Casa Civil desde 2003, tendo passado por várias alterações ao longo desse tempo.

(*) CO equivalente (CO2e) é uma medida usada para comparar as emissões dos diferentes gases-estufa em função de seu potencial de aquecimento. Calcula-se esse potencial em relação ao poder de aquecimento do CO2, que se convencionou equivaler a 1. Por exemplo, o potencial de aquecimento do metano ao longo de 100 anos é 21. Ou seja, 21 vezes mais que o potencial de aquecimento do CO2.

 

Para saber mais

  • Center for International Forestry Research (Cifor)
    cifor.org
  • Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC Brasil)
    fsc.org.br
  • Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam)
    ipam.org.br
  • Movimento Empresarial pela Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade (MEB)
    mebbrasil.org.br
  • Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica
    cbd.int

Agricultura e pesca

Embora dependa umbilicalmente da natureza, a agricultura é uma das atividades econômicas que mais exaurem os recursos naturais, além de responder por quase 13,5% das emissões globais dos seres humanos de gases de efeito estufa (sem contar as causadas pelo desmatamento para abertura de novas áreas agrícolas). Outra parcela de 17,4% das emissões globais de gases-estufa deriva da expansão da atividade agrícola sobre florestas, savanas e Cerrado.

O uso de fertilizantes sintéticos, agrotóxicos e combustíveis fósseis e a fermentação entérica dos bovinos são as principais fontes de emissões de gás carbônico, óxido nitroso e metano no setor agropecuário.

No lugar desse modelo predatório, aparece a proposta da agricultura verde, que se propõe a reconstruir o capital natural por meio de modelos alternativos ao vigente, tais como a agricultura orgânica, e de técnicas, que podem ser aplicadas em fazendas convencionais tais como: restauração da fertilidade do solo com nutrientes naturais; plantio direto (*) para prevenir a erosão; rotação de culturas; integração lavoura-pecuária; ilhas de biodiversidade e manejo integrado de pragas, doenças e ervas daninhas para diminuir a aplicação de agrotóxicos; irrigação por gotejamento a fim de tornar mais eficiente o uso da água; e decréscimo no desmatamento, nas perdas de biodiversidade e nas emissões de gases-estufa. Veja abaixo o aumento registrado por alimentos e bebidas orgânicas nas vendas mundiais:

 

Vendas globais de alimentos e bebidas orgânicos, em US$ bilhões

2000 17,9
2003 25,5
2006 40,2
2009 54,9

Fonte: Ifoam/Organic Monitor (Sahota, 2011). Acesse http://www.ifoam.org/events/fairs/pdfs/BF2011_Congress/MAR_WOA_Presentation_small.pdf

 

Para saber mais

  • Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA)
    aspta.org.br
  • Associação de Agricultura Orgânica (AAO)
    aao.org.br
  • Avaliação Internacional do Conhecimento, Ciência e Tecnologia Agrícola para o Desenvolvimento
    agassessment.org
  • Consultative Group on International Agricultural Research (CGIAR)
    cgiar.org
  • Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com destaque para os centros de agroenergia, florestas e meio ambiente
    embrapa.br
  • Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica
    ifoam.org
  • Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora)
    imaflora.org
  • Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)
    fao.org
  • Programa Agricultura de Baixo Carbono do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa)
    agricultura.gov.br/abc
  • Rede de Ação em Praguicidas e suas Alternativas da América Latina (RAP-AL)
    rap-al.org


Economia solidária

A necessidade dos trabalhadores de países emergentes desenvolverem formas alternativas de geração de renda aumentou substancialmente nas três últimas décadas. Devido à política de ajuste fiscal e desregulamentação econômica nos países em desenvolvimento, o trabalho informal e precário e o desemprego cresceram, tornando-se elementos da nova configuração econômica do mundo globalizado. É nesse contexto que se abriu uma janela para o surgimento e fortalecimento de organizações de trabalho baseadas na autogestão e no comércio justo, dimensões fundamentais da economia solidária.

No Brasil, a articulação nacional dos grupos da economia solidária teve início na primeira edição do Fórum Social Mundial (FSM), realizada em janeiro de 2003 em Porto Alegre (RS). Milhares de trabalhadores participam de diferentes organizações de trabalho coletivo e autônomo na economia solidária, que vem se afirmando como uma das mais importantes estratégias de inclusão social nas políticas de Desenvolvimento Sustentável. Os grupos da economia solidária compreendem gama bastante diversificada de iniciativas – redes de produção, comercialização e consumo, instituições financeiras, empresas autogestionárias e cooperativas de agricultura familiar e prestação de serviços, entre outras.

Tanto nos países emergentes quanto nos países desenvolvidos existe um movimento no sentido de valorizar os produtos que têm origem nessas redes, que promovem a sustentabilidade e geram renda para as comunidades pobres, o chamado comércio justo.

 

Para saber mais


(Veja o item sobre finanças sustentáveisabaixo que integra  esta série de textos, e aborda o microcrédito).

  • Informações sobre iniciativas podem ser encontradas no livro Geração de trabalho e renda, gestão democrática e sustentabilidade nos empreendimentos econômicos e solidários, publicado pela Fundação Banco do Brasil (FBB) e Publisher Brasil em dezembro de 2009 (organizado por Claiton Mello, Jorge Streit e Renato Rovai). Disponível em: http://www.fbb.org.br/reporter-social/noticias/fundacao-disponibiliza-na-internet-publicacoes-sobre-atuacao-na-area-de-geracao-de-renda.htm
  • Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE)
    fase.org.br
  • Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES)
    fbes.org.br



Finanças sustentáveis

Instituições financeiras costumam liderar as listas de empresas com menor emissão direta de gases de efeito estufa (GEE). De fato, bancos, empresas de investimento e seguradoras – atividades centrais do sistema financeiro – não apresentam problemas importantes nas emissões de suas operações internas. O ponto, entretanto, é que a contribuição do setor de finanças para o aquecimento global e padrões socioambientalmente insustentáveis nas atividades econômicas ocorre fundamentalmente por meio dos produtos que comercializam.

Ao longo da última década, a pressão de organizações da sociedade civil no mundo como a rede Bank Track, levou bancos, governos e instituições multilaterais a adotar procedimentos para evitar a concessão de crédito a projetos com elevado risco socioambiental. Também ganha terreno o lançamento de índices e produtos financeiros lastreados em ações e papéis de empresas com boa avaliação socioambiental, tais como o pioneiro Índice de Sustentabilidade Dow Jones (DJSI) na Bolsa de Nova York, em 1999, e o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), na BM&FBovespa, em São Paulo, em 2005.

Os documentos que guiam esse lento movimento de mudança na costumeira visão de curto prazo do setor financeiro são no plano internacional: a Declaração de Collevechio e os Princípios do Equador, assinados em 2003; os Princípios para o Investimento Responsável, adotados em 2006, no plano internacional; e o Protocolo Verde, com versões publicadas em 1995, 2008 e 2009. A primeira versão do Protocolo Verde foi assinada em novembro de 1995 pelos cinco bancos públicos federais – Banco do Brasil (BB), Caixa Econômica Federal (CEF), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Nordeste (BNB) e Banco da Amazônia (Basa). Ela foi revisada em agosto de 2008 e ganhou uma versão específica para os bancos privados em abril de 2009.

Além da criação de linhas de crédito socioambiental para induzir boas práticas e incentivar projetos de eficiência energética e energia renovável, edifícios verdes, processos de produção limpa e produtos certificados, os bancos estão expandindo o microcrédito, inspirados em experiências como a do Grameen Bank, de Bangladesh.

Para saber mais

  • Sobre Princípios do Equador consulte texto da declaração e informações sobre adesões e sua implementação em: www.equator-principles.com.
  • Ceres, organização americana que reúne ambientalistas e investidores
    ceres.org

 

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