Data: 12/09/2014
Entrevistas
“Precisamos construir instrumentos para um ciclo de incerteza”, adverte o pesquisador.
Entre os dias 03 e 14 de junho de 1992, a Conferência das Nações Unidas Sobre o Ambiente e o Desenvolvimento reuniu mais de uma centena de chefes de Estado para debater, propor e estabelecer metas que levassem em conta uma relação mais harmoniosa entre o homem e a natureza. Um marco internacional para as discussões sobre ambientalismo, a Eco-92 (ou Rio-92, como também é conhecida) estabeleceu convenções importantes sobre o clima (Protocolo de Kyoto), a biodiversidade e a sustentabilidade (Agenda 21).
Vinte anos depois, uma nova conferência da ONU foi realizada no Rio de Janeiro, a Rio+20.
Para o pesquisador do Instituto Politécnico de Tomar (Portugal), Luiz Oosterbeek, no entanto, é “metodologicamente incorreto” comparar os dois eventos em termos absolutos. Assim, mais do que avaliar se o novo evento foi tão representativo como o primeiro, é preciso entender: por que a Eco-92 falhou? Afinal, “o mundo está inegavelmente pior em 2014 do que estava em 1992”.
Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Oosterbeek reflete que há duas possibilidades para compreender esta falha: ou se considera que todos os agentes e governos são incompetentes e mal-intencionados, ou se assume que existe um erro teórico na primeira conferência. “A Eco-92 ignorou uma dimensão fundamental: a divergência de interesses históricos das tradições culturais do planeta e o diferente entendimento que cada uma delas tem de palavras como sustentabilidade, sociedade ou ambiente. O final do século XX ignorou as culturas e pensou que elas seriam engolidas pela globalização. O século XXI está demonstrando, de forma muito dura, que isso foi um erro”.
Para o pesquisador, esta dimensão, por outro lado, foi reconhecida — mesmo que timidamente — pela Rio+20. O evento foi bastante questionado por ter falhado em estabelecer metas mais arrojadas para o enfrentamento das questões ambientais. No entanto, segundo Oosterbeek, acertou “ao colocar as pessoas no centro da sustentabilidade e ao assumir que, mais do que metas, precisamos acordar caminhos partilhados”. E finaliza: “É pouco? Sim. Porém, é muito mais do que desejos generosos mas irrealistas”.
Luiz Oosterbeek é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com doutorado em Pré-História e Arqueologia pela Universidade do Porto. Atualmente é professor do Departamento de Território, Arqueologia e Patrimônio do Instituto Politécnico de Tomar, Secretário-Geral da União Internacional das Ciências Pré-Históricas e Proto-Históricas e Vice-Presidente de HERITY International; integrou a área de Ciência e Sociedade do programa CYTED. É diretor do Museu de Mação e presidente do Instituto Terra e Memória. É autor de diversas obras, entre elas Arqueologia, patrimônio e gestão do território (Erechim: Habilis Editora, 2007) e Arqueologia trans-atlântica (Erechim: Habilis Editora, 2007).
Luiz Oosterbeek estará participando do III Congresso Internacional de Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, a ser realizado em Belo Horizonte, nos dias 10 a 12 de setembro, na Escola Superior Dom Helder Câmara – ESDHC, organizado pelo Instituto Socioambiental Dom Helder.
Confira a entrevista.
Foto: 1.bp.blogspot.com
IHU On-Line – A Eco-92 é tida como um marco histórico nas discussões sobre a cultura socioambiental no cenário internacional. Você acredita que a Rio+20 teve a mesma representatividade? Por quê?
Luiz Oosterbeek – É sempre anacrônico, metodologicamente errado e, sobretudo, intelectualmente frágil, comparar em termos absolutos eventos extraídos de seus contextos. A Eco-92 foi de fato um evento muito marcante, que culminou mais de duas décadas de crescente afirmação da chamada “agenda ambiental” e se beneficiou do otimismo, um pouco apressado e ingênuo, resultante da queda do Muro de Berlim. A conferência cuidou de estabelecer metodologias e de estabelecer metas, considerando o planeta no seu todo. Acertou bastante em algumas metodologias (especialmente a Agenda 21, mas importa lembrar que é depois de 92 que se generalizam os Ministérios de Meio Ambiente em todo mundo) e falhou em grande medida nas metas.
O que interessa hoje é perceber o porquê desta falha, pois o mundo está inegavelmente pior em 2014 do que estava em 1992. E aqui ou se considera que todos os agentes e governos são incrivelmente mal-intencionados ou incompetentes, ou se assume que talvez existisse um erro teórico na Eco-92, que aliás já estava na formulação anterior do chamado “tripé da sustentabilidade”. Na minha opinião, a Eco-92 ignorou uma dimensão fundamental: a divergência de interesses históricos das tradições culturais do planeta e o diferente entendimento que cada uma delas tem de palavras como sustentabilidade, sociedade ou ambiente. O final do século XX ignorou as culturas e pensou que elas seriam engolidas pela globalização. O século XXI está demonstrando, de forma muito dura, que isso foi um erro. A Rio+20 teve um mérito: reconheceu a dimensão cultural, ainda que de forma tímida, ao colocar as pessoas no centro da sustentabilidade, e ao assumir que, mais do que metas, precisamos acordar caminhos partilhados. É pouco? Sim. Porém, é muito mais do que desejos generosos mas irrealistas. “Não há um paradigma, há vários em conflito, e infelizmente os que parecem ter mais força agora são os paradigmas anteriores aos acordos do pós-2ª Guerra”
IHU On-Line – O grande tema da conferência era “Que futuro queremos?”. No entanto, sem a adesão dos Estados Unidos e com a supressão de metas mais polêmicas, quais indicativos são possíveis de se estabelecer?
Luiz Oosterbeek – Sobre a questão das metas creio já ter deixado claro que não as considero o mais importante nesta fase, que é uma …
